A correnteza da minha existência desce por vales de pedras com trilhas diversas, porém sempre seguindo destino rumo ao oceano dos meus sonhos. No amplo percurso, Eu-Rio abasteço vidas, sacio a sede de seres e alimento a natureza. Ainda no mesmo trajeto, por vezes sou maltratada, sou poluída e esvaziada. Contudo, continua-se a percorrer pelos mesmos caminhos de forma límpida e transparente. A dialética de um rio não pode cessar. A dignidade de um Ser-Rio jamais pode abater-se.Enquanto isso fulanos e fulanas banham-se em mim, mergulham no meu ser e nadam nas águas da minha essência.
Eu-Rio também corro por terras pouco planas, o que possibilita as quedas bruscas e cascatas com pancadas agressivas. Nem só de planícies vive um Rio, os planaltos existem.
Eu-Rio, por conseguinte nem sempre sou mansidão. Nas marés de lua torno-me mistério e agressão.
Eu-Rio tenho a formação que surgi da terra e por ela hei de seguir com minha missão. Lavando minha alma.
Sobre mim o sol nasce e bate forte reluzindo. E ao findar o dia ele se põe e se despede para voltar na manhã seguinte. Sobre mim as estrelas brilham e aparecem para não me abandonar tão só, com saudade do sol. Ao meu redor vivem passarinhos nos galhos das nobres vizinhas árvores que me acalentam com seus hinos de paz.
Perto de mim sempre há vida.
Eu-Rio me confundo por vezes comigo mesma. Uma fusão de sentimento e desembaraço nas veias.
Conclui-se que a arte de Ser-Rio está em não se permitir transformar em poças. Estas não se renovam, não deságuam em ninguém, e se esgotam no seu próprio ser.
Vânia Almeida,
Parnaíba 27/10/2006


